O "não" e a dor no processo de crescimento
Há vários anos, venho tentando entender um fenômeno cada vez mais comum nas novas gerações de famílias.
Sem querer generalizar e apenas tentando refletir, chama-nos a atenção a quantidade de famílias que entendem que educar bem e formar crianças felizes é sinônimo de "blindarem" os filhos contra toda e qualquer chance de frustração e perda. Na realidade, as consequências desse tipo de educação podem ser catastróficas e, por isso, precisamos pensar mais sobre ela.
Amor, atenção, carinho são requisitos básicos para um crescimento sadio e devem fazer parte de todas as relações entre pais e filhos. Proteção e cuidado são, e devem continuar sendo, atitudes permanentes em todas as famílias de bem. Mas é preciso saber expressar e empregar bem esses sentimentos e atitudes, para que eles tenham resultados positivos no desenvolvimento da criança. Superproteger, ao contrário do que alguns possam pensar, não é uma expressão de carinho, mas de medo e insegurança, e a criança acaba por assimilar essas posturas para o seu comportamento.
Quem não aprende a lidar com o sofrimento, a descobrir que ele faz parte da vida e a encontrar ferramentas próprias para trabalhá-lo, deixa de desenvolver uma defesa fundamental para seu próprio equilíbrio emocional.
É utópico acreditar que somos capazes de suprir todas as necessidades dos filhos!
Outra crença infundada é a de que nem a escola nem a família, mas "a vida", "algum dia", se incumbirá de ensinar o real significado da palavra não às crianças. Ironicamente, é nesse tipo de história familiar que o processo de lidar com as frustações que a vida impõe tende a ser muito mais traumático e pesado, porque a criança não foi preparada de maneira adequada, e não necessariamente há amor nos ensinamentos que a vida dá.
Colocar uma criança em uma redoma de vidro é dar-lhe a entender que não acreditamos em sua capacidade para resolver problemas. Isso pode contribuir para que ela desenvolva sentimentos de insegurança e incapacidade.
Toda criança precisa aprender que ora ganhamos e ora perdemos e que, muitas vezes, somos frustrados em coisas que desejamos muito. Caso contrário, ela desenvolverá uma fantasia de que pode e merece tudo e de que nunca deve ser contrariada. Essa fantasia leva o indivíduo a um comportamento egocêntrico e a uma tolerância baixíssima à frustração.
Sejamos realistas: qual a chance de alguém passar pela vida sem ter que lidar com algum tipo de perda? E como acreditar que alguém que foi desestimulado a lidar com isso ao longo da infância e da adolescência pode se sair bem em tais situações na vida adulta?
A expressão mais saudável do nosso carinho e da nossa atenção é a presença e o diálogo honesto a respeito da vida, de suas alegrias e de suas dores. Cabe a todos nós, pais e educadores, preparar as crianças e jovens que tanto amamos para as adversidades. A melhor maneira de protegê-los é torná-los fortes e capazes de enfrentar a vida.

Lorena Macedo